Atualizado em 19 jun, 2026 -

Por que escrevi o livro Burnout tem lei

Livro Burnout Tem Lei

Ao longo da minha trajetória na advocacia, aprendi que os processos raramente começam quando chegam ao Judiciário.

Na verdade, eles começam muito antes.

Começam quando alguém passa a sentir que não consegue mais lidar com a pressão diária do trabalho. Quando o cansaço deixa de ser apenas cansaço. Quando a ansiedade passa a fazer parte da rotina. Quando a pessoa percebe que está adoecendo, mas ainda não consegue entender exatamente o que está acontecendo.

Foi convivendo com essas histórias que nasceu o livro Burnout Tem Lei.

Mas a minha relação com esse tema começou muito antes da advocacia.

Minha mãe conviveu com transtorno bipolar em uma época em que saúde mental era um assunto cercado por silêncio, preconceito e incompreensão. Eu vi de perto como o adoecimento psíquico pode afetar não apenas a saúde de uma pessoa, mas também sua autoestima, suas oportunidades e a forma como ela é vista pela sociedade.

Ela amava trabalhar. Sentia orgulho de ser produtiva, de contribuir, de se sentir útil. Mas também enfrentou momentos em que a doença falou mais alto e em que o julgamento das pessoas parecia tão difícil quanto os próprios sintomas.

Essa experiência me ensinou algo que nunca esqueci: por trás de cada diagnóstico existe uma pessoa. E por trás de cada pessoa existe uma história que merece ser compreendida com respeito e humanidade.

Anos depois, já atuando como advogada, comecei a encontrar essa mesma realidade em diferentes formas.

Passei a atender trabalhadores que chegavam ao escritório carregando não apenas documentos e laudos médicos, mas também dúvidas, medo e um profundo sentimento de insegurança.

Dra. Prsicila Arraes Reino

Muitos não sabiam como agir diante do INSS.

Não sabiam o que fazer quando a empresa questionava seu adoecimento.

Não sabiam quais documentos guardar.

Não sabiam como registrar situações de assédio.

E, principalmente, não sabiam que possuíam direitos.

Foi observando essa realidade que percebi a existência de um vazio preocupante entre o adoecimento e a informação.

Enquanto a pessoa tentava lidar com sintomas, tratamentos e incertezas sobre o futuro, precisava também tomar decisões importantes que poderiam impactar sua renda, seu emprego e sua proteção jurídica.

E muitas vezes fazia isso sem orientação.

O resultado era previsível.

Trabalhadores deixavam de produzir provas importantes.

Perdiam oportunidades de proteger seus direitos.

Tomavam decisões sem conhecer as consequências.

E enfrentavam dificuldades que poderiam ter sido evitadas com informação adequada.

Foi para reduzir essa distância que escrevi Burnout Tem Lei.

Não para incentivar disputas judiciais.

Não para transformar cada problema em um processo.

Mas para oferecer conhecimento acessível em um momento em que muitas pessoas se sentem vulneráveis e desorientadas.

A informação não elimina o sofrimento.

Não substitui o tratamento médico.

Não resolve, sozinha, os desafios que acompanham o adoecimento mental.

Mas ela pode proteger.

Pode ajudar alguém a compreender melhor sua situação.

Pode evitar erros.

Pode trazer mais segurança em um momento de incerteza.

E pode devolver algo muito importante para quem está enfrentando um período difícil: a capacidade de fazer escolhas conscientes.

O burnout e outras doenças relacionadas ao trabalho deixaram de ser situações isoladas. Hoje, fazem parte de uma discussão que envolve saúde, dignidade, produtividade e qualidade de vida.

Por isso, acredito que falar sobre esse tema é uma responsabilidade.

Escrevi este livro porque, ao longo dos anos, conheci pessoas que precisavam de informação, acolhimento e orientação.

Pessoas que buscavam respostas.

Pessoas que queriam entender o que estava acontecendo com suas vidas.

E pessoas que precisavam saber que o adoecimento não apaga sua história, sua competência ou seu valor.

Se este livro ajudar alguém a compreender seus direitos, evitar um erro importante ou encontrar um caminho mais seguro em um momento difícil, ele terá cumprido sua missão.

E foi exatamente por isso que eu o escrevi.

Foto de Priscila Arraes Reino
Priscila Arraes Reino
Advogada previdenciária e trabalhista especialista em doenças ocupacionais e Síndrome de Burnout. Formada em Direito pela Universidade Católica Dom Bosco (2000). Sócia fundadora do Arraes & Centeno Advogados Associados. Especialista em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho e Pós-Graduada em Direito Previdenciário. Palestrante (OAB/MS 8596, OAB/SP 38.2499 e OAB/RJ 251.429).

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